A ponte para o passado do governo Temer

Eu sou da área da Linguagem, vejo, graças aos estudos de Bakhtin e Volochinov (2014), que o signo linguístico é ideológico por excelência. Nossa linguagem é fortemente marcada por nossa ideologia, que é inerente a todas as formas de discurso, sejam eles orais ou escritos. A ideologia (e a linguagem) está, não apenas no papel, na tela ou na fala, mas em vídeos, desenhos, sons e em tudo aquilo que pode ser texto, isto é, em tudo o que gera significação e se vale da língua/linguagem para sua materialização.

Podemos tratar disso também a partir da semiótica, ou ainda, mais especificamente, da literatura. A partir dessa perspectiva, é possível conceber os símbolos como representações do que cremos, pensamos, sentimos e buscamos. O ser humano é sedento pela ficção, pela simbologia e por algo que possa representá-lo. Tanto que, por pensarmos simbolicamente, nosso mundo de verdades é simbólico, isto é, o mundo, os valores que o compõe como verdadeiro e até a nossa identidade, estão repletos de simbologia. Daí, a importância da estética para a formação do indivíduo e para a construção de suas relações na sociedade. A representação simbólica materializa-se por meio de signos (sejam eles linguísticos ou não), que se constituem em discursos. Foucault (2010) ainda nos explica que o mundo é um entrelaçamento de marcas e palavras e que o discurso possui poder de anular o estado bruto das coisas, ou seja, aquilo que está posto no discurso faz prevalecer o ato simbólico sobre o objeto, sobre a verdade primeira. Por conta disso, dentro da simbologia, somos o discurso no qual nos encontramos.

O fato de o logotipo do Governo Temer remeter à bandeira do Brasil da década de 1960 não é coincidência, nem descuido de sua equipe de marketing, tampouco teoria da conspiração. Aliás, não é apenas o logotipo faz referência a algo assombroso, o slogan "Não pense em crise, trabalhe", atrelado à perspectiva desse Governo, é semelhante (e ideologicamente próximo) ao "Arbeit macht frei" ("O trabalho liberta"), usado em Auschwitz, 1940, para representar o pensamento nazista no que concerne às políticas voltadas ao trabalho.

Os estudos do antropólogo Street (2014, p. 141) nos mostram como um texto escrito pode ser concebido como um "conceito organizador em torno do qual se definem ideias de identidades e de valor social". As pesquisas feitas pelo autor, sejam as realizadas nos EUA, Irã ou Madagascar, revelam como a linguagem pode ser um instrumento de dominação ou de resistência.

Segundo Irandé (2012), desde a forma de pronunciar, as entonações, as combinações sintáticas, até as escolhas das palavras num texto, são marcas de nossa identidade cultural. Isso porque a linguagem intermedeia nossa relação com o mundo e essa relação consiste entre as categorias cognitivas que construímos das coisas ao longo de nossas vivências. Nesse sentido, nossas ações de linguagem são construídas pelas palavras, pois as palavras são elementos disponíveis para expressar essas categorias; são elas, as palavras, que remetem ao conhecimento que o ser humano adquiri em sua experiência de vida com a sociedade na qual está inserido.

Saindo do campo teórico e observando como a linguagem está intimamente marcada pelo horizonte social de uma época e de um grupo social determinados, podemos citar a propaganda da Alemanha nazista, liderada por Joseph Goebbels, que, a partir de diferentes formas discursivas, pôde disseminar as ideias da política de Adolf Hitler. Os nazistas valeram-se da mídia, da arte, da cultura e dos símbolos para tratar da moral, dos bons costumes, do controle da inflação, do combate ao desemprego e à corrupção, do pensamento antissemita e xenofóbico, da religiosidade e do serviço a um deus cristão (que nada tinha de cristão), da hiper valorização do trabalho, entre outras coisas.

Embora pareça exagero (ou até mesmo uma aplicação da Lei de Godwin) afirmar que o Governo Temer se revela como fascista em sua práxis, desde sua postura positivista, até suas formas de discursos, mostram-nos que há mais similaridades do que poderíamos supor. Não afirmo que o PMDB, com Temer, tentará um Golpe de Estado e que haverá intervenção militar assim que o impeachment for concretizado, a questão é que usar a mesma bandeira usada na época da ditadura revela, no mínimo, uma falta de sensibilidade e noção enormes, sobretudo com relação às lutas, dores e sangue tão próprios daquela dura época. É nessa falta de sensibilidade que mora o grande perigo, pois a incapacidade de perceber as similaridades com um sistema de governo desigual e intolerante abre portas para que haja, justamente, a desigualdade e a intolerância. Nos detalhes, percebemos isso, basta lembrar do texto final em propagandas do Governo Federal com Dilma (PT): "Brasil, um país de todos", que é oposto ao que vemos hoje com Temer (PMDB): "Ordem e progresso".

Para comprovar tal hipótese, temos um vasto arcabouço antropológico e diversas contribuições da Filosofia da Linguagem. Creio que negar que o governo Temer seja um grande retrocesso no que se refere às políticas democráticas é o mesmo que negar toda a História e todo o conhecimento construído nos últimos séculos, sobretudo àqueles cujo objeto não se limita ao campo epistemológico, mas que reconstrói seu objeto por meio de uma reinserção dele "nas redes práticas, instrumentos e instituições que lhe dão sentido no mundo social" (Rojo, 2008, p. 73). Diante disso, acredito ser importante uma escolha, a fim de formar nosso pensamento e posição frente ao que acontece hoje no Brasil: ou nos apoiamos em jornalistas da Folha, Globo, Estadão e em comentaristas da Jovem Pan, por exemplo, ou nos voltamos a Bakhtin, Street e tantos outros que tiveram muito mais condições de analisar a realidade de forma mais profunda e criteriosa.

O que escrevi aqui parte de um critério, parte das contribuições mais recentes no campo da linguagem. No entanto, outras áreas poderiam contribuir para essa discussão, a fim de mostrar o perigo que nos ronda com a atuação dos políticos que tomaram, à força, a presidência. Escolhi tratar do assunto tendo como base a Filosofia da Linguagem e a Linguística, pois a palavra é o material privilegiado da comunicação na vida cotidiana e possui o papel de instrumento da consciência, funcionando "como elemento essencial que acompanha toda a criação ideológica" e que "comenta todo ato ideológico". Mesmo que os signos ideológicos não sejam substituídos em sua totalidade pelas palavras, cada um deles se apoia e é acompanhado por elas, assim como acontece com o canto e seu acompanhamento musical, pois qualquer signo cultural pode ser abordado verbalmente, isto é, pode "tornar-se parte da unidade da consciência verbalmente constituída" (BAKHTIN; VOLOCHINOV, 2014, p. 38).

Para encerrar, reafirmo que, a fim de negar tudo isso e acreditar que o governo Temer não oferece riscos sérios, será preciso derrubar todas as teorias postas aqui. E, para derrubá-las, será preciso derrubar junto, não apenas Marx, Engels, Nietzsche, Wittgenstein. Os estudos acerca da linguagem e de como ela é essencial em nossa vida começam lá em Aristoteles, talvez antes.

Derrubar uma presidenta é mais fácil. Bastar ter dinheiro, empresários, políticos e mídia nas mãos. Para derrubar o conhecimento, é preciso muito mais. E isso os golpistas certamente não têm. Por isso, nossas linguagens são um perigo a eles e, constantemente, governos assim tentam nos calar, seja silenciando os intelectuais, ou os artistas com sua arte.

 

Referências

ANTUNES, Irandé. Território das palavras: estudo do léxico em sala de aula. São Paulo: Parábola Editorial, 2012.

BAKHTIN, Mikhail Mikhailovich; VOLOCHINOV, Valentin Nikolaevich (1929). Marxismo e filosofia da linguagem: problemas fundamentais do método sociológico na ciência da linguagem. Trad. do francês de Michel Lahud e Yara Frateschi Vieira. 16 ed. São Paulo: Hucited, 2014.

FOUCAULT, Michel. As palavras e as coisas. 10. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2010.

GARCIA, Eduardo de Campos. Ser humano: soberano, perigoso e maquiavélico. Filosofia. São Paulo, ano VIII, n° 80,  p. 14-23, mar. 2013.

ROJO, Roxane. Gêneros de discurso/texto como objeto de ensino de línguas: um retorno ao trivium? In: SIGNORINI, I. (Org.) [Re]Discutir texto, gênero e discurso. São Paulo: Parábola, 2008, p. 73-108.

STREET, Brian. Letramentos sociais: abordagens críticas do letramento no desenvolvimento, na etnografia e na educação.Trad. Marcos Bagno. São Paulo: Parábola editorial, 2014.

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