Os perigos da escola pública

A visita de um estagiário, futuro professor, em uma escola pública é tão conflitante quanto - numa situação hipotética - a ida de um historiador do século XXI a antiga era Mesozoica. 

Saindo de um universo reflexivo e questionador, aquele pobre estudante, acostumado com os ares modernos das teorias que lê na universidade, adentra um terreno desconhecido que é, à primeira vista (e no senso comum), antigo, cinzento e até perigoso. 

Assim como o historiador, em nossa situação hipotética, caminharia silenciosamente para não ser percebido pelos grandes répteis que dominavam o mundo, o nosso estagiário caminha timidamente na escola pública onde há também um reino de figuras temíveis que imperam. 

Os perigos se revelariam ao historiador de nossa narrativa onde quer que ele estivesse, uma vez que os dinossauros, criaturas enormes e ferozes, estariam nos ares, mares e na terra. Assim também, na escola pública, as criaturas ferozes ameaçam o futuro professor. Elas devoram e caçam sonhos; muito embora não vivam deles, as feras fazem isso apenas pelo prazer ideológico da caça e do constante murmúrio. Contudo, esses perigos não estão em todos os lugares da escola, mas em apenas um: nas conversas da sala dos professores. 

O jovem professor, caminhando nos terrenos rochosos, não de uma era antiga geológica, mas de uma era antiga de pensamento, é amedrontado pelas garras e dentes afiados daqueles que veem um abismo enorme entre teoria e prática. Seu desejo de mudar o mundo, de ser educador e de intervir socialmente de um modo politicamente ativo, viram prezas fáceis para o pessimismo daqueles professores que de tudo reclamam: dos alunos, da família dos alunos, da direção, da coordenação, do governo, da sociedade, dos filósofos da educação, dos teóricos, das teorias, da estrutura da escola, da falta de tempo, dos projetos desenvolvidos pelos educadores mais novos, do carro mal estacionado no estacionamento, da lista do café, entre outras coisas. 

A vida dos dinossauros da pedagogia não é simples e diversas demandas recaíram, injustamente, sobre a escola. O perfil agressivo dessas feras é até passível de explicação. No entanto, não podemos negar os perigos que representam para os novos aventureiros. Tais feras, na ânsia pela insatisfação, são os primeiros a reclamar de tudo, mas os últimos a apontar soluções; são os que mais reclamam da falta de tempo para ler, mas sabem o nome dos personagens da novela das 20h. Ademais, é da natureza dessas feras a alimentação por meio de mexericos. Seres assim tornam-se perigosos predadores dos sonhos do nosso estagiário e até da valorização do ato de educar. Seus ataques, ameaçadores, se revelam no seguinte discurso: “tem certeza de que você vai ser professor? Você é novo, vá estudar outra coisa!”.   

O pior é que professores, criaturas ferozes paradas no tempo Crustáceo da escola, infelizmente, demoram a entrar em extinção. 

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