Quando a esperança renasce da poesia

Publicado em 06/05/2016 às 22h04

Dia 06 de maio, o dia acordou nublado. A caminho da USP, liguei o celular, a fim de saber o que estava acontecendo no Brasil e no mundo. Uma das primeiras notícias que li, já em seu título, causou-me grande desconforto, ela tratava da reintegração de posse no Centro Paula Souza.

Li textos e vi fotos que mostravam que a reintegração aconteceu de forma arbitrária e violenta. Policiais militares invadiram o local armados e arrastaram estudantes para fora do centro ocupado, criando, assim, uma cena humilhante e que causava profunda indignação.

Parecia que o dia (e a esperança) havia acabado ali, no momento em que vi, pela internet, aquele cenário "de homens treinados para bater e matar, com armas e escudos, atacando estudantes treinados pra pensar, com cartazes que ficaram mudos". Essa situação, somada ao caótico contexto político pelo qual passamos, provocou em mim o desalento, nada mais fazia sentido, nem as aulas do mestrado que assistiria a seguir na universidade, pois, aqueles adolescentes estavam, a meu ver, fazendo muito mais pela Educação do que o mundo acadêmico, mais que os professores, mais que todos nós. Contudo, pareciam sozinhos em sua luta, perdendo-a, sem ter quem os salvasse.

O dia que amanhecera cinzento, após o pôr do sol, teve um novo curso, um novo brilho. Era dia de Slam da Ponta, sarau e batalha de poesias organizada pelo Mc Lucas Afonso. Mal sabia eu que, naquele evento, eu sentiria (e somente em seu término pude perceber) aquilo que a antropóloga Michèle Petit diz em sua obra A arte de ler ou como resistir à adversidade: a literatura é uma forma de resistência em tempos de crise.

E ela, a literatura, naquela noite, foi uma forma de resistir e revigorar as forças diante da crise política (e porque não humana?) que enfrentamos. 

Isso ocorreu por conta dos convidados do evento. Estavam presentes os alunos-poetas do nosso projeto Arte e Intervenção Social, a fim de apresentar o livro Entre versos controversos: o canto de Itaquera, obra que publicamos no final de 2015; e o Sarau Onetti's, idealizado pela Professora Vivi e seus alunos e alunas da Escola Estadual Juan Carlos Onetti.

Tanto o sarau, quanto a batalha de poesias, foram uma grande aula pra mim. Ver aqueles jovens recitando poemas, sendo os autores e protagonistas daquela noite foi o que me tirou do sentimento de descrença e reacendeu a esperança. Embora os tempos sejam difíceis, pude ver a energia daqueles jovens, a qualidade inegável de suas poesias e a forma que eles enxergam o mundo. Além da aula de poesia, tivemos, com eles, uma aula de humanidade.

A experiência que tive nesse dia remete a um poema de Victor Rodrigues, "as balas são de borracha / porque a intenção / é apagar palavras de revolução". Por conta disso que tentam silenciar os estudantes, pois a poesia deles é a voz de uma classe que luta por seus direitos e, enquanto houver essas poesias, haveria luta e haverá esperança.

Que nossos versos, controversos, possam narrar a poesia de nossas culturas, identidades, histórias, lutas e que, quando estivermos juntos, não haja derrotados, somente respeito de ponta a ponta.

 

voltar para Blog

show fsN normalcase tsN fwB right|show tsN left fwR|fwR show left tsN|b04 bsd|||login news c10 fwB fsN|normalcase uppercase fwB sbww c05 fwR c10 tsN|c10 fwB|login news normalcase uppercase fwB c10|normalcase uppercase tsN fwB fsN c05s|normalcase uppercase c10|content-inner||