Mais um mestre em Itaquera

Publicado em 22/11/2016 às 01h06

Pode parecer prepotente esse título, mas não, justifico-o. Não consigo ver tudo isso que aconteceu como uma conquista individual, tampouco como algo que nasce da ideia de mérito. O fato de haver mais um mestre em Itaquera, região periférica, abandonada durante desde seu surgimento pelo Poder Público e pela mídia, possui uma importância política e coletiva. Sou mais um que está chegando para mudar as estatísticas, mais um que conseguiu ocupar os espaços de uma universidade pública que sempre são negados àqueles que pertencem a classes sociais desfavorecidas.

Entrei para o mestrado na USP a partir de um programa de pós-graduação stricto sensu chamado Profletras, aplicado durante a gestão Dilma. Além disso, tive auxílio de amigos, professores e alunos durante os dois anos de mestrado somados à preciosa ajuda de meus pais. Esses fatos apenas comprovam que é preciso de incentivos e políticas públicas que facilitem a entrada (e continuação) de pessoas de baixa renda na universidade pública. Não adotarei o discurso de “sai de lá de baixo e, com meu esforço, consegui chegar aonde cheguei”. Não. Tal ideia é egoísta e até pedante. Acredito que a individualidade não deve esmagar o caráter coletivo das coisas.

Voltando ao percurso da narrativa principal, que é contar como foi enfrentar a tão temida Banca Examinadora, gostaria de compartilhar o desfecho da epopeia de dois anos de estudo.

O caminho de Itaquera até a Cidade Universitária (Butantã) no dia 18 de novembro, data da minha defesa, na minha mente doente e preocupada, era algo semelhante ao caminho que Ulisses fez para voltar para Ítaca. Os professores da Banca Examinadora seriam divindades que eu deveria enfrentar antes de voltar a minha Itaquera-Ítaca, divindades assim como as três irmãs Moiras responsáveis por tecer e cortar o fio da vida dos mortais.

A primeira fala foi da minha orientadora. Ela explicou para o público que eu teria 20min. de apresentação e, em seguida, cada profSalvaressor da Banca teria outros 20min. para fazer a arguição e eu outros 20 para me defender. A palavra arguição e defesa deram um gelo enorme em minha espinha, como se um Ciclope aparecesse de repente naquela sala.

Aberta a sessão de defesa daquele Olimpo, respirei fundo e quase derrubei o copo com água da minha mesa. Expliquei minha pesquisa e contei a história do projeto Arte e Intervenção Social e do livro “Entre versos controversos: o canto de Itaquera”. Encerrei aquela batalha declamando um poema de Ni Brisant. Junto comigo, os alunos-poetas cantaram a poesia. Confesso que quase chorei, mas quis ser durão, não sei porque. Havia um receio de chorar e não conseguir falar mais nada misturado com o receio de desmaiar (e também não conseguir falar mais nada).

A palavra foi passada para o primeiro professor da Banca. Para minha surpresa, ele chorou e não conseguiu terminar sua fala (viu só porque eu não poderia chorar?). A segunda professora começou com elogios e eu esperando aquela famosa vírgula seguida de um “mas, eu tenho umas considerações e críticas a fazer”. Não houve. Outra surpresa. O primeiro professor teve uma nova chance de fala. Mais surpresas. Em seguida, a terceira professora, também emocionada, fez sua arguição. Fez perguntas muito interessantes. Todos foram carinhosos. Aquela batalha que eu imaginava me fez perceber como eu deveria investir na escrita fantástica, pois tanta ficção criei na minha mente por conta do medo de não ser aprovado. Foi um momento muito bom, muito significativo e muito divertido (não sabia que era possível rir tanto em uma defesa de mestrado).

Todos os presentes saíram da arena-sala e apenas os professores da Banca e minha orientadora ficaram lá para tecer o fio da minha vida acadêmica (é algo burocrático, ninguém pode ficar nessa sala até serem preenchido todos os papéis, o que colabora para o suspense do enredo). Voltamos, fui aprovado, tornei-me mestre no que se refere ao título acadêmico, pois, em vida, continuamos todos alunos.

Senti-me muito honrado com a presença do Legant, Anderson, Rosinha, Mariana, Camila, Ana Carolina, Agildo, Carolina, André, Fábio, Mônica, Gabriela, Fernando, Angela, Rafael (que apareceu só pra dar aquele salve e aquela força); dos poetas Leticia, Valquíria, Pedro, Maicon e Millene; e dos meus pais Marco e Denise. O apoio de vocês foi essencial nesse dia, sem vocês, de verdade, não seria lindo do jeito que foi. Aos professores também devo agradecimento por conta da leitura atenta de minha dissertação e pelo carinho especial em cada fala feita na defesa.

Os planos depois do título de mestre ainda são incertos. Alguns me perguntam se pretendo engatar um doutorado, se penso dar aula em alguma universidade, se tentarei acessar cargos de gestão na rede pública. Apenas consegui planejar terminar de assistir algumas séries da Netflix, é o máximo que minha mente conseguiu pensar até o momento.

Brincadeiras à parte, planos não foram escritos (ainda), mas o desejo de continuar atuando como educador na rede pública permanece. Durante esse tempo de estudo, encontrei várias falhas minhas e a possibilidade de novos caminhos. Nossa luta continua. O acesso ao conhecimento e o direito à cultura e literatura continuam sendo, a meu ver, uma das formas mais ferozes de nossa resistência. Que mais alunos e alunas possam escrever livros de poesia. Que mais professores de diversas itaqueras possam ter a oportunidade de aperfeiçoar sua práxis.

Muito obrigado a todos pela torcida, apoio e carinho. Deus realmente (e não sei porque) vem sendo muito bom comigo por ter a oportunidade de contar com todos vocês nos momentos mais especiais de minha vida.

 

Um grande salve de Itaquera! Noiz!

 

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