ainda bem que me livrei de nossas fotografias

hoje sonhei
que uma peste invadia meu apartamento
caçando ruínas em memórias
farejando lembranças a tragar

com sede de caos
arrastava móveis
revirava gavetas
tirava coisas do lugar

quebrou vasos
riscou discos de miles davis
comeu metamorfoses de kafka
vomitou todas elas na parede de meu quarto e
com os restos
pintou a réplica de guernica

até que encontrou nossas fotografias

pegou-as com cuidado
acariciando a imagem de seu rosto
os olhos da fera nessa hora cintilavam

surgiu-me a dúvida
se eram lágrimas
e se fera chora

num instante de segundo
naquele segundo que dura o século de uma madrugada
o monstro as enfiou na mandíbula
mastigou-as com ímpeto
como cão esfomeado
que devora um pedaço de carne que sangra

salivando
voltou a remexer gavetas
abrir portas
jogar ao ar o que estava guardado

até que encontrou aquele desenho que fez para mim

a fera olhava o sulfite em que você desenhara com lápis 2b
qualquer borracha apagaria fácil seus esboços e sentimentos

lentamente
rasgou a folha na metade
depois rasgou as duas metades
rasgou novamente o que sobrara
num movimento crescente
cada vez mais furioso, veloz

destruiu o desenho
assim como máquinas agrícolas derrubam canaviais e trabalhadores do campo
como o neoliberalismo derruba a perspectiva de um pobre
como a europa derruba bombas em solo sírio
como você me derrubou quando me disse que ficava com outras pessoas

as fotografias, o desenho
nada sobrou

nesse momento esqueci de seu nome
não lembrei da cor de seu cabelo
fugiu-me da mente o mês em que nos beijamos

(acho que foi em maio
pois maio é um mês triste)

feito o estrago
a fera notou que eu mudo a observava

eu seria a próxima peça a ser tragada

tentei fugir
lutamos
sai sangrando arranhado
ela com ombro esquerdo deslocado

escapei para a rua
a fera tentava se recuperar dentro de meu quarto

curiosamente
não havia outras casas
prédios
postes
a rua era um grande nada

era a noite mais estrelada que vi em vida
li no céu constelações
desenhei orion com os olhos
reconheci o arco de sagitário

tentei encontrar as estrelas que formam seu signo
mas nem seu nome lembrava

dispersei
continuei lendo os astros

mas
percebi que
uma das estrelas da cruzeiro do sul havia sumido
havia também apenas duas marias

começando pela calda
uma a uma
as estrelas de escorpião iam se apagando

outras estrelas também

uma a uma

constelações inteiras se apagando

uma a uma

até o céu ficar completamente escuro e vazio

percebi que estava nu

um bafo quente
subiu pelo meu pescoço
senti garras fincando meu braço esquerdo

meus joelhos fraquejaram
chegara minha morte

rugido

grito

*

acordei

atônito
fui à pia lavar meus olhos e a alma

percebi que o monstro se escondia
atrás dos vidros de meu espelho

[ainda bem que me livrei de nossas fotografias e daquele desenho]

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