amarelinha

um menino brincando de se pendurar nas árvores
ensina a gente sobre a desrealidade das coisas

ele se lança galhos a dentro
desbrava perigos da selva e da terra
é rei da floresta
é rei de si

faz diferença pra ele se sua aventura é ficção ou não?

uma menina pulando amarelinha
ensina sobre o paraíso das não coisas

ela salta sorrindo do inferno ao céu
se desequilibra no caos
joga pedrinhas
e recolhe caminhos

faz diferença pra ela se as linhas do asfalto não são as mesmas da vida terrena?

o céu em dias de nuvem
ensina como se faz para não chorar tempestades

reconhecer o rosto de um velho
encontrar um cãozinho gigante
construir um castelo de tijolos feitos com água de gás
tudo são formas de desfantasiar a imaterialidade dos céus

quando a gente decifra a figura de uma nuvem
também faz exercício de desvendar
o enigma de um sorriso dado pela pessoa por quem a gente se apaixona

faz diferença se são apenas nuvens ou se dragões brancos tomaram o céu?

a gente não se anoitece vivendo das coisas que não existem
mas se perde no breu quando aprende a desinventar

a gente cresce
vira criança grande que morreu
e aprende como desama e desalma em vida

a gente começa a desimaginar

(é somente aqui que faz diferença se é realidade ou não)

criança cria e descria mundos
adulto só sabe criar boletos
criança vive de ficções
adulto morre em suas realidades

foi por isso que eu te inventei
eu te inventei e comecei a criançar uma história pra nós dois

eu inventei que seus lábios são pétalas
que nenhuma flor tem seus dentes
e que as primaveras te perfumam

eu inventei que me afogava em suspiros
seu olhar foi farol em alto-mar
me guiou pra fora da tempestade
e fez nevoeiro dentro do peito

eu inventei que um passarinho
assistiu a gente conversando numa tarde de domingo
e cantaninou um poesia pra nossa história
eu roubei metade de seus versos e fiz esse poema

eu inventei que não preciso de remédios pra dormir
fiquei apenas com o vício de abrir as nossas mensagens
e de esperar resposta sua

(foi um médico quem inventou que eu deveria abrir a caixa de remédios e fechar a de lembranças)

e se eu inventasse silêncio?
e se seu silêncio inventou-me poeta?
e se sua ausência foi o passarinho que inventou esta história?

hoje não salto mais quadrados no asfalto
mas quando te vejo
meu peito saltita

hoje não me penduro mais em galhos
mas me lançaria fácil
em seus cabelos e cafunés

eu entardeço em seu sorriso
como criança decifra a figura de uma nuvem

depois que eu fui rei da floresta
eu te inventei
e você foi a melhor das minhas invenções

pena que pra você eu nunca existi

confesso que criei desrealidades
que inventei esta história
mas o que senti por você
nunca foi ficção

[passei a relevar as mentiras que o coração conta
e a considerar a sinceridade da imaginação]

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