Lembranças do mundo antigo

I.

 

Antes 

o filho de Clara brincava  

no jardim da escola com as crianças.  

O céu era verde sobre o gramado,  

a água era dourada na torneira que matava a sede no pátio,  

as nuvens faziam um ateliê diferente a cada leitura,  

a camiseta branca ficava sempre marrom pintada pela terra  

e havia mais cores que os pixels podem desenhar.  

  

Hoje  

o neto de Clara suja menos as camisetas,  

quase não sai do quarto do 3º andar do prédio Saint-Preux pra ver as pinturas das nuvens cinzas,  

metade do jardim da escola virou sala de informática, a outra estacionamento,  

a grama é bem verde nos jogos online de futebol  

e a água ainda sai dourada pela torneira,   

mas só quando não tem racionamento.  

  

Hoje também há cores no céu, 

o céu cinzento até recuperou os tons azuis, róseos e alaranjados,  

mas observá-lo por uma tela faz com que tudo nele pareça preto e branco. 

 

 

II.

 

Anos atrás,   

numa cidadezinha do interior,  

tudo era perto da gente.  

Nos dia de chuva,  

as paredes da sala ficavam úmidas,   

seu tom esverdeado e claro se apagava,  

o sol mal conseguia entrar nas frestas da janela.   

Quando chovia bastante,  

nem sol havia...  

e o reboco da parede descascava e caía;  

caía como a tristeza da chuva,  

caía como a umidade dos olhos.  

Nos dia de morte,  

a despedida era dentro das nossas paredes úmidas e frias,  

o caixão era trazido pra dentro casa,  

a lágrima também...  

  

Hoje  

em qualquer capital cheia de gente,  

até quando perto, as coisas estão longe.  

A gente morre num hospital em que não conhecemos ninguém,  

a parede é menos fria que a fala do médico,  

a despedida é na igreja, no cemitério - não mais em casa.  

A saudade é a mesma,  

a lágrima é certeza,  

entra corpo, sai corpo,  

enterra alma, enterra outra, mais outra,  

a produção não pode parar!  

(Antes de chorar, a gente precisa assinar uns papéis).  

Há várias salas no corredor,  

todas também são úmidas e enegrecidas nos dias de chuva,  

mas cada uma tem um choro diferente e distante de casa  

(não se esqueça de assinar aqui antes que morra também o verso).  

  

Em uma cidade grande,  

a despedida fria fica mais fria  

e até a morte fica distante de nós. 

 

 

III.

 

Enquanto o mundo na cidade grande  

gira mais rápido  

aqui tudo permanece  

e o instante do minuto  

parece eterno  

  

as únicas coisas que se movem  

são as águas do lago e as folhas das árvores  

  

O canto dos pássaros é eterno  

O perfume das plantas permanece  

O conforto do vento é constante  

  

A suave brisa caminha até mim  

E acaricia minha face  

E a beleza sem fim  

Fez com que o poema se calasse  

  

A voz de um quero-quero é quem recita o verso  

O silêncio das águas dá a musicalidade  

A árvore traz o frescor e a inspiração  

E o eu-lírico, sentado no banco em frente ao lago,  

Vê a eternidade no minuto de calmaria  

E louva a natureza que lhe escreve sua poesia. 

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