o vazio de mim

convidei-me a mim mesmo
para tomar café numa
tarde de quarta

sentamos
sorrimos
conversamos sobre
política
viagens
cinema

nunca nos amamos
mas estávamos ali
dando uma nova chance
um ao outro

senti falta de quem eu era
confessei ao meu eu a saudade
que em mim havia
ele me perguntou se eu sabia
quem era e quem sou eu hoje

num instante bebi metade de meu café
fiz um silêncio que durou uns dezesseis anos

sem resposta procurei algo
que nos distraísse da pergunta

não havia outros clientes
nem funcionários
a cafeteria era um vazio
entre mim e eu

constrangido
fui à calçada sozinho para fumar
não havia pedestres, carros
prédios ou postes
todo concreto havia sido
levado pelo Nada
um grande deserto, sem nada
apenas um céu azul com
figuras gigantes de nuvens
figuras tão grandes que
eu podia tocá-las
ali da calçada

mas queimei a ponta dos dedos com o cigarro
a dor me lembrou que
precisava para dentro retornar

toda dor é um alerta

de volta
encontrei meia xícara de café já frio
e as duas cadeiras vazias

revirei mesas, o balcão
atrás das cortinas
o andar de cima

nada
levaram meu eu de mim

esfreguei meus dedos da mão
dor e delírio ardiam
na ponta dos dedos

procurei em volta do quarteirão
haviam levado também as nuvens
e aquele céu azul
não havia mais nada
a esquina era um vazio
entre o Nada e eu

mesmo no escuro da não-rua
achei o caminho de volta
lembrei-me de que quando
fechamos os olhos
fica mais fácil encontrar as pegadas
que guiam para o caminho de dentro

tudo que estava como antes:
o vazio
o silêncio
o café e eu pela metade

fui mais uma vez ao andar de cima
entrei no toalete para lavar o rosto
e enxugar meu desespero

encarei o espelho
que de volta me encarou
havia o reflexo apenas dos azulejos
não vi minha imagem refletida no espelho
o vidro era o vazio
entre a vida e eu

uma lágrima travava uma grande batalha
para se libertar de meus olhos
e viver sua vida em abundância
deslizando no universo de meu rosto

levaram as ruas, os prédios
as pessoas que amei
o céu, minhas nuvens
levaram meu eu de mim

apenas minha tristeza
não conseguiram levar
por isso tanto me apego a ela
é a única parte de mim que me restou

com os olhos fixos no espelho
quebrei-lhe com um soco
uma rachadura de fez no centro
e caminhou espelho acima

meu ímpeto abalou a estrutura do andar
a rachadura continuou pela parede
seguiu pelo teto
o reboco foi cedendo
poeira sobre mim caía
como fruto do desgaste do tempo

o prédio estava prestes a desabar
assim como eu

desci as escadas correndo
procurei refúgio lá fora, na noite

lá fora não existia mais
levaram-me também a noite

meu choro não conseguiram levar
porque se escondeu
atrás dos muros de meus olhos

a vida é o vazio
entre a morte eu

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