Ruína

As paredes de casa estão úmidas  

e já não resistem a ação do Tempo.  

Sentado em minha cama, vejo  

o reboco do teto cedendo  

e rachaduras que destoam a pintura.  

  

Sobre minha coxa, cai a poeira,  

fruto do desgaste de meu teto.  

A cada reflexão, uma rachadura nova;   

juntas, criam um mapa de lembranças,  

fruto da umidade de meu tempo.  

  

À minha frente, está uma ampulheta,  

o teto se desfalece no mesmo ritmo  

da areia que cai dentro dela.  

Há pouca areia na ampulheta,  

mas muita poeira que me sufoca.  

  

O teto cede por inteiro.   

Do andar de cima, vêm abaixo   

os móveis, vasos e tapetes;  

vêm à tona também os livros e as fotografias.  

Tudo se desmancha e vira pó dentro de minha casa  

  

A poeira é tão intensa que suja toda a noite.  

É difícil respirar e a visão fica turva,  

nem mais a ampulheta consigo ver com nitidez.   

Há tanta poeira sobre mim que é impossível levantar-me,  

ela me devora e pesa-me como chumbo.  

  

Não há mais teto,   

tampouco o andar de cima;  

não há o que me proteja da chuva.  

A água não serve para limpar a poeira,  

antes cria barro em todo o quarto.  

  

Sem mais o meu teto, dá pra ver   

as estrelas no firmamento, mas, elas não brilham,   

o vento espalhou a poeira e toda a noite ficou opaca.  

A chuva fica mais forte,  

além do teto, fará desabar o céu!  

  

Na tempestade, não cai mais água, é a areia da ampulheta.  

A noite esvanece, desfalece, vira pó!  

As estrelas, a lua, os astros e todo firmamento  

desfarelam e caem sobre meu corpo.  

Tudo que é matéria implode dentro do meu quarto.  

  

Não há mais céu, não mais mais casa,   

não há nem trevas...  

Somente o nada.  

Levanto-me, giro a ampulheta, volto a sentar-me  

e espero uma nova ruína.

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