diga adeus antes de mergulhar nos mares do fim do mundo

 

 

diga adeus ao seu amor antes de ele mergulhar 

a última vez nos mares do fim do mundo

 

em dez segundos, mergulhamos nos lençóis maranhenses, compramos artesanatos para nossos pais em mandacaru e seguimos viagem para o delta do parnaíba. dentro destes dez segundos, ainda deu tempo de molhar os pés nas águas de barra grande e até de transar escondido na lagoa de jijoca. 


em dez segundos, deixamos os rastros de nossos sentimentos e volúpias na rota das emoções, foi o tempo exato em que você se atrapalhava toda naquela hamburgueria vegana que fica na alameda santos, onde nos encontramos pela terceira vez. o recheio de seu lanche caía quase que por completo no prato enquanto você sorria sem graça tentando disfarçar sua dificuldade de comer sem se sujar. durante aqueles dez segundos, eu não havia percebido o quanto você é atrapalhada e o quanto poderia me conquistar até você se entregar com sua timidez e sorriso. não percebi, pois estava distraído mergulhado nas praias nordestinas e nas minhas expectativas criadas naquele pequeno intervalo de tempo.

o instante em que seu lanche se desfazia foi o momento em que algo novo se formava diante de nós. dez segundos foram suficientes para jogarmos videogame juntos e brigarmos porque você tomou meu controle, para assistirmos duas séries e deixarmos a terceira pela metade, para conhecer seus melhores amigos e para ver a divisa do cinza céu da cidade e do verde da mata atlântica lá do alto do pico do jaraguá, algo que os dois sempre tiveram vontade de fazer, mas nunca a oportunidade.

ainda nestes dez segundos, entramos no banheiro de uma balada em pinheiros e também transamos escondido lá. fizemos o mesmo na piscina daquele hostel em paraty e drogados em uma das pedras da pirâmide de são tomé.

desrespeitamos o sagrado da cidade mineira porque somos profanos e porque o místico daquele lugar também reside nas alucinações de um cogumelo. desrespeitamos o sagrado, o místico e até o tempo. e isso nenhum doce poderia fazer por nós.

eu digo nós porque naquele curto espaço de tempo seus olhos visitaram os mesmos lugares que os meus. eu os vi no instante em que você me olhava com malícia ao abri o zíper de minha calça naquela balada e ao sorrir assustada quando me ouviu dizer pela primeira vez que você era meu amor. essa foi a minha maior adrenalina com você naquela montanha de quintal estrelado em são tomé. joguei a culpa nos cogumelos. mas menti. o efeito deles já havia passado e eu estava em êxtase por conta de outra substância, tudo porque nossa pele em atrito vicia.

nenhum de nós jamais assumiria isso. é por isso que escrevo, pois meu eu-lírico sempre soube amar e ser mais corajoso do que eu.

viajamos para tão longe sem imaginar que entregaríamos nossos corpos e almas no banco de trás de meu carro minutos depois de sair da hamburgueria. nossa transa ali pareceu mais ficção do que tudo aquilo que imaginamos em dez segundos, pois ela durou dez ou cem anos talvez. a lua da cidade cinza interrompeu seu caminho para nos proteger do amanhecer que traria o fim de nosso encontro. enquanto isso, a história do mundo seguia seu curso.

na ásia, amanhecia e um novo conflito surgia no iêmen, uma criança mexicana de treze anos chorava com saudade dos pais imigrantes, o tronco de uma castanheira desabava no chão amazonense após ser cortada por madeireiros e um casal de pinguins acasalava no sul da patagônia. o mundo continuava seu curso e ignorava nossa existência. apenas nós dois paramos no tempo, por dez ou cem anos, pouco importa.

mas, nos últimos segundos deste século que durou a intensidade de uma noite, o mundo parou de nos ignorar ou eu comecei a percebê-lo. não sei. apenas sei que minha alma saiu da distorção do espaço-tempo e se voltou à cronologia que os humanos inventaram. a lua começou a se movimentar lentamente ao mesmo tempo que um despertador tocava em xangai para acordar um pobre trabalhador chinês, ao mesmo tempo que aquele pinguim perdia sua fêmea que virou caça de um predador nas frias águas do pacífico, ao mesmo tempo que eu abri meus olhos em direção aos seus e enxerguei meus medos.

lembrei que todo amor deve ser livre, mas que minhas inseguranças não suportariam te imaginar em outros braços. sou vidro frágil para guardar um sentimento tão nobre. e talvez todos nós sejamos. nossa alma trinca só por existir. a liberdade é uma utopia que só existe até a hora em que queremos ser livres para ser presos por vontade, até a hora em que aceitamos ser servos como voluntários.

nossas mãos não aprenderam a ser fortes o suficiente para sustentar o peso de uma vida leve. por isso aprendemos a amar a ideia de amor romântico e não a pessoa que poderia ser amada. por isso temos mais medo da vida do que da morte, mais medo de viver coisas boas demais do que de viver uma não-vida.

vestimos nossas roupas. voltamos ao curso da história. liguei o carro e seguimos. sua mão sobre minha coxa enquanto dirigia não fazia menos peso que a atmosfera terrestre.

eu te levei à estação barra funda e ali nos despedimos. você antes me pediu para avisar quando chegasse a minha casa. seus olhinhos me olhavam com voz de pressentimento. eles estavam ainda mais castanhos e cintilantes.

enviei uma mensagem quase uma hora depois que cheguei, mas pareceu que se passaram dez segundos. disse que cheguei bem. você, insegura, perguntou se nos veríamos de novo. eu, seguro de minhas inseguranças, escrevi que adorei a noite e que foram os melhores cem anos da minha vida, que viajaria a trabalho para o nordeste e que, ao voltar, ligaria.

lá, no litoral, lembrei da vez em que não-transamos na lagoa de jeri.

hoje faz seis meses que retornei. seis meses que não nos falamos. seis meses que a hamburgueria fechou e construíram uma academia no lugar. seis meses que aquele trabalhador acorda em xangai sem vontade de viver. seis meses que aquele pinguim espera triste na praia sua fêmea retornar das águas do pacífico.

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