5 de agosto

a garoa batia nas janelas do quarto. era apenas mais um dia de uma menina pobre. estava frio o bastante para que minhas meias gastas fossem insuficientes. é difícil, em dias assim, saber o que vestir; a escassez de roupa contrasta com o cenário gelado da casa em que vivo. não me incomoda o frio, o guarda-roupa quase vazio, nem algumas roupas com seus furos. andaria descalça e pisaria sobre as poças frias. sairia sem casaco e enfrentaria o vento gelado batendo em minhas costas. brincaria ainda de correr da garoa no caminho da escola. [mas a menina aqui tinha que se agasalhar bem para vencer o frio da sociedade em que vive] em frente ao espelho sujo e rachado na parte de cima, experimento minhas roupas. há poucas peças e o momento parece durar horas. a cada troca de roupa, um rosto diferente aparece em meu espelho. diversos rostos aparecem, menos o meu. [acontece que gente pobre muitas vezes é invisível até a si mesmo] estudaria com o moletom azul com o qual dormi, mas isso só protegeria de um frio que é menor que o gelo dos olhares. os rostos diferentes continuam no espelho e é para eles que pergunto se o casaquinho vinho doado por minha prima está bom, se a jaqueta cinza desbotada está bonita e se é possível perceber o rasgado na manga de minha blusinha preta. gente pobre sofre pelo tempo frio e pela frieza dos olhares de desdém, olhares que fazem a gente se vestir nunca pra si mesmo, sempre para os outros.

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