a noite em que acabei com os problemas do mundo

toda vez que escrevia uma palavra dentro de mim ela desaparecia no final do dia escrevi memórias inventadas sobre o sentido da vida tudo sumia depois de contornar a última letra troquei o suporte da escrita escrevi em cadernos em fotografias nos muros em branco rascunho algum permanecia meus versos não tinham história sem rosto passado e presente eram um instante passei a escrever à noite e a me esconder pra vigiar o desaparecimento das palavras descobri que era o tempo quem tudo fazia sumir ele segurava minhas escritas com as mãos cruzava suas pernas me lia com desleixo e apagava meus rabiscos senhor de si o tempo sempre foi egoísta às vezes apagava com tanta força que a folha se desmanchava decidi então pregar-lhe uma peça e desenhei os olhos do tempo num papel o tempo ficou cego ele os apagou com a borracha por engano com o tempo em minhas mãos pude escrever livremente roubei a borracha do tempo desenhei um mar e lá nas profundezas a joguei triste, o tempo vivia sentado na poltrona sem ter como agir de cabeça baixa, roía as unhas sem entender como deixou de enxergar enquanto a mim fui a nhinhinha de guimarães por quanto tempo? não sei não havia mais tempo pra contar os dias sei apenas que escrevi haja luz e houve luz no papel escrevi a palavra arco-íris em seguida choveu e se fez o colorido do céu além de permanecerem minhas palavras eram criadoras então escrevi um poema e nele refiz o gênesis e a relação dos homens narrei a morte das guerras dos deuses da ciência da lascívia da volúpia o poema tinha cor verde e todos nós dormíamos em redes nada nem ninguém tinha ou era propriedade de alguém meu poema tinha perfume de paz


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mas com o tempo não se brinca traiçoeiro, decidiu se vingar roubou meu lápis enquanto eu distraído dormia roubou pra si meu lápis, meus versos se apropriou da minha escrita e fodeu com a história toda escreveu em cima do meu poema as palavras: ambição, egoísmo e poder foi então que os personagens de meu poema começaram a brigar entre si as redes foram abandonadas ninguém dormia mais nelas os homens construíram camas no lugar disputavam entre si as mais confortáveis os que não podiam construir roubavam dos outros e os mais fortes obrigavam os mais fracos a construírem além das camas construíram casas umas maiores que as outras alguns invadiam o espaço do outro para construir e este outro ia ficando cada vez com menos espaço até perder o que tinha e ter que ir para longe e lá longe ter que tomar o espaço de outro e este outro ter que ir também para mais longe e construir no espaço de outro e de outro e de outro havia desperdício de tijolos e com o que sobrou construíram templos foi quando o tempo escreveu mais três palavras: milagre, mistério e autoridade e assim surgiram os deuses e assim os homens usaram estas três palavras para se matarem entre si para impedir os mais fracos de construírem suas casas seus templos suas histórias acordei com os gritos do meu poema que sangrava com o choro de crianças imigrantes separadas dos pais presos no norte da américa com a histeria de uma mãe que viu seu filho explodir ao pisar numa mina em solo paquistanês com o berro do jovem que colocou fogo no próprio corpo na primavera árabe [morrer em chamas doía menos que viver] acordei com o cheiro de gás em auschwitz com o estouro da bomba em nagasaki com os tiros dados numa escola de suzano acordei com os homens poderosos prometendo mais armas ao povo e com o povo gritando e morrendo por causa delas acordei sedento por guerra nhinhinha, a menina de guimarães havia morrido após ser violentada por sete soldados ocidentais na palestina então fui pra cima do tempo com a fúria dos séculos lutamos lutamos a noite inteira lutamos a ponto de suor e sangue se confundirem em nossos póros lutamos tanto que nossos rostos ficaram irreconhecíveis nossas roupas se rasgaram nossas bocas ensanguentadas partes do corpo mutiladas roubei meu lápis de volta e finquei a ponta com toda minha força na coxa direita do tempo ele gritou foi o maior grito em toda a história do universo o tempo procurou apoio numa parede foi escorregando até sentar no chão, imóvel na ponta do lápis, sangue e uma parte da carne do tempo ali ficaram com minhas mãos trêmulas levei o lápis até meus lábios limpei a sujeira do tempo com a boca e cuspi em seguida fui até meu poema mancando sentei e ali tentei corrigir a obra do tempo desenhei as redes de volta o arco-íris escrevi as palavras: cristo, gandhi e mandela mas os homens de meu poema já eram fortes demais e mataram cristo e gandhi e mataram chico mendes e mataram marielle franco e mataram tudo que eu tentava escrever eu não tinha mais a borracha para apagar as atrocidades do tempo ele ainda sentado ria parecia não sentir mais dor se divertia na dor do mundo caçoava de mim, dos homens caçoava de si e dos deuses não havia como vencer o tempo [a não ser estando fora dele] percebi então que a forma de acabar com o tempo era não existir mais para ele escrevi as palavras: perdão e adeus com as mãos ainda muito trêmulas levei o lápis na direção de meu peito pressionando bem forte contra mim girava de um lado para o outro o pedaço do grafite para perfurar mais sangue e choro saíam de mim vomitei e urinei desesperado tinha a vista turva não via mais o poema a noite mais nada senti sobre meus ombros o peso das mãos do tempo ele arrancou o lápis do m e u pei to c e rrou me us ol ho s de u umbeij o quen te na testa e disse - me q ue eu eu q e

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