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©2020 por Daniel Carvalho e Kerstin Buck

DANIELGTR - CNPJ: 36.240.550/0001-25 - São Paulo, SP
danielgtr@gmail.com

    ainda bem que me livrei de nossas fotografias

    hoje sonhei que uma peste invadia meu apartamento caçando ruínas em memórias farejando lembranças a tragar com sede de caos arrastava móveis revirava gavetas tirava coisas do lugar quebrou vasos riscou discos de miles davis comeu metamorfoses de kafka vomitou todas elas na parede de meu quarto e com os restos pintou a réplica de guernica até que encontrou nossas fotografias pegou-as com cuidado acariciando a imagem de seu rosto os olhos da fera nessa hora cintilavam surgiu-me a dúvida se eram lágrimas e se fera chora num instante de segundo naquele segundo que dura o século de uma madrugada o monstro as enfiou na mandíbula mastigou-as com ímpeto como cão esfomeado que devora um pedaço de carne que sangra salivando voltou a remexer gavetas abrir portas jogar ao ar o que estava guardado até que encontrou aquele desenho que fez para mim a fera olhava o sulfite em que você desenhara com lápis 2b qualquer borracha apagaria fácil seus esboços e sentimentos lentamente rasgou a folha na metade depois rasgou as duas metades rasgou novamente o que sobrara num movimento crescente cada vez mais furioso, veloz destruiu o desenho assim como máquinas agrícolas derrubam canaviais e trabalhadores do campo como o neoliberalismo derruba a perspectiva de um pobre como a europa derruba bombas em solo sírio como você me derrubou quando me disse que ficava com outras pessoas as fotografias, o desenho nada sobrou nesse momento esqueci de seu nome não lembrei da cor de seu cabelo fugiu-me da mente o mês em que nos beijamos (acho que foi em maio pois maio é um mês triste) feito o estrago a fera notou que eu mudo a observava eu seria a próxima peça a ser tragada tentei fugir lutamos sai sangrando arranhado ela com ombro esquerdo deslocado escapei para a rua a fera tentava se recuperar dentro de meu quarto curiosamente não havia outras casas prédios postes a rua era um grande nada era a noite mais estrelada que vi em vida li no céu constelações desenhei órion com os olhos reconheci o arco de sagitário tentei encontrar as estrelas que formam seu signo mas nem seu nome lembrava dispersei continuei lendo os astros mas percebi que uma das estrelas da cruzeiro do sul havia sumido havia também apenas duas marias começando pela calda uma a uma as estrelas de escorpião iam se apagando outras estrelas também uma a uma constelações inteiras se apagando uma a uma até o céu ficar completamente escuro e vazio percebi que estava nu um bafo quente subiu pelo meu pescoço senti garras fincando meu braço esquerdo meus joelhos fraquejaram chegara minha morte rugido grito * acordei atônito fui à pia lavar meus olhos e a alma percebi que o monstro se escondia atrás dos vidros de meu espelho [ainda bem que me livrei de nossas fotografias e daquele desenho]