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©2020 por Daniel Carvalho e Kerstin Buck

DANIELGTR - CNPJ: 36.240.550/0001-25 - São Paulo, SP
danielgtr@gmail.com

    amarelinha

    um menino brincando de se pendurar nas árvores ensina a gente sobre a desrealidade das coisas

    ele se lança galhos a dentro desbrava perigos da selva e da terra é rei da floresta é rei de si

    faz diferença pra esse menino se sua aventura é ficção ou não?

    uma menina pulando amarelinha ensina sobre o paraíso das não coisas

    ela salta sorrindo do inferno ao céu se desequilibra no caos joga pedrinhas e recolhe caminhos

    faz diferença pra essa menina se as linhas do asfalto não são as mesmas da vida terrena?

    o céu em dias de nuvem ensina como se faz para não chorar tempestades

    reconhecer o rosto de um velho encontrar um cãozinho gigante construir um castelo de tijolos feitos com água de gás tudo são formas de desfantasiar a imaterialidade dos céus

    quando a gente decifra a figura de uma nuvem também faz exercício de desvendar o sorriso dado pela pessoa por quem a gente se apaixona

    faz diferença se são apenas nuvens ou se dragões brancos tomaram o céu?

    a gente não se anoitece das coisas que não existem mas se perde no breu quando aprende a desinventar

    a gente cresce vira criança grande que morreu e aprende como desama e desalma em vida

    [é somente nesse ponto que faz diferença se é realidade ou ficção]

    criança cria e descria mundos adulto só sabe criar boletos criança vive de ficções adulto morre em suas realidades

    foi por isso que eu te inventei eu te inventei e comecei a criançar uma história pra nós dois

    eu inventei que seus lábios são pétalas que se abrem que nenhuma flor tem seus dentes que as primaveras te perfumam

    eu inventei que me afogava em suspiros seu olhar foi farol em alto-mar me guiou pra fora da tempestade mas fez nevoeiro dentro do peito

    eu inventei que um passarinho assistiu a gente conversando numa tarde de domingo e cantaninou um poesia para nós dois eu roubei metade de seus versos e escrevi esse poema

    eu inventei que não preciso mais de remédios pra dormir fiquei apenas com o vício de abrir as nossas últimas mensagens e de esperar em vão resposta sua

    [foi um médico quem inventou que eu deveria

    abrir a caixa de remédios e fechar a de lembranças]

    se eu inventasse silêncio? se seu silêncio inventou-me poeta? e se sua ausência foi o passarinho que inventou esta história?

    hoje não me penduro mais em galhos mas me lançaria fácil em seus cabelos e cafunés

    hoje não salto mais amarelinhas no asfalto mas quando te vejo meu peito saltita

    eu entardeço em seu sorriso como criança decifra a figura de uma nuvem

    depois que eu fui rei da floresta eu te inventei e você foi a melhor das minhas invenções

    pena que pra você eu nunca existi

    confesso que criei desrealidades que idealizei uma história e que inventei este poema

    mas o que senti por você nunca foi ficção











    [sobre relevar as mentiras que o coração conta e considerar a sinceridade da imaginação]