das coisas que a gente desprecisa

das coisas que a gente precisa: das coisas que a gente desprecisa:


a gente precisa levar a vida com menos seriedade para que ela seja séria por isso decidi viver desplanejando comecei a dormir nas aulas e estudar a matéria nos trens chego atrasado no trabalho quase todas as manhãs por demorar a vestir as meias ou por ficar paquerando o sol se espreguiçando atrás dos prédios da cohab passei a discutir política com memes a desler comentários dos leitores do g1 deixei de ir a manifestações para assistir house of cards voltei a assistir desenhos a gente precisa esperar menos da vida para que ela não seja uma quase morte decidi viver de desexpectativas na primavera passei a encontrar folhas secas não convido mais os dias de sol para sair comigo nos dias de férias desisti de encontrar melhor posição para o braço ao dormir de conchinha não faço mais planos pra cessar minhas dores parei de calcular a quantidade de pó ao fazer o café jogo água no coador assim como caminho de cabeça baixa chutando pedrinhas na rua tudo agora é instinto bebo o amargo da vida a gente precisa viver menos o futuro, visitar menos o passado entendi que hoje é quase nunca, que o presente foi anteontem parei de conversar com meus traumas embora leia suas mensagens ainda parei de responder os meus medos embora eu ainda os procure pra passear aos domingos dei fim aos mini-infartos na hora dos pênaltis perder um gol na decisão final é o mesmo que morrer antes dos 45 a vida é um jogo e viemos para jogar apenas pra jogar sem esperar a presença da torcida a vida é arquibancada vazia não espero mais beijar no primeiro encontro mesmo querendo encontrar de novo aquele beijo dado no primeiro encontro dentro de um carro, numa rua escura com medo de assalto, da polícia e de se apaixonar agora só evito sair com gente de libra mesmo sem acreditar no significado dos signos para mim, os planetas nada sabem sobre os homens e a gente sabe ainda menos das estrelas parei de regar as sementes dos meus sonhos deixei que a chuva faça isso sozinha em dias de seca, chovo dentro de mim e no verão me embriago com a água das nuvens não tenho mais clima pra tempestades agora tenho tempo até pra perder tempo a gente precisa parar de ignorar nossas dores precisa convidá-las para comer bolo de fubá, tomar café nas tardes de quarta e pra lavar roupa suja parei de tomar anestesias não estanco mais meu sangue quando me corto escrevo em vermelho meus versos em meus cadernos há menos poemas e muito mais cicatrizes

Inscreva-se para receber novidades

  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

©2020 por Daniel Carvalho e Kerstin Buck

DANIELGTR - CNPJ: 36.240.550/0001-25 - São Paulo, SP
danielgtr@gmail.com