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©2020 por Daniel Carvalho e Kerstin Buck

DANIELGTR - CNPJ: 36.240.550/0001-25 - São Paulo, SP
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    desejo nossa morte


    desejo nossa morte para que nosso momento  de luto seja a luta de nossos corpos nus para que nossos braços e pernas se cruzem debaixo de lençóis como raízes se entrelaçam  e transam solo abaixo

    em nosso culto fúnebre que os hinos entoados sejam compostos pela melodia de nossos gemidos e pela respiração ofegante e descompassada a decomposição será composta por versos pois a poesia é o adubo  do prazer que nos cobre do prazer que nos envolve

    eu desejo nossa morte pois prefiro o enterro de nossos egos ao nascimento de nosso amor pois nascer é sangrar do ventre e morrer é contínuo nascer é ter existência limitada morrer é pra sempre, é permanente então que voltemos ao pó coloquemos nossas liberdades em lápides quem sabe assim seremos finalmente livres para nos entregar sem medo

    a liberdade pós-moderna suga mananciais deixa terras vazias e corações secos seja então enterrada toda busca incerta que sufoca o solo

    caiam por terra também os frutos compostos apenas  por cascas para que nossa morte  não seja idealizada como a vida é para não corrermos o risco de ser semente  em solo em que não se planta de ser nuvem  em céu que não se alcança de fazer fotossíntese debaixo de luz artificial e de amar aquilo que gostaria que fosse e não o que realmente é

    sonhamos  com uma colheita única e bela mas esmagamos  os frutos com nossos pés porque nossos olhos enxergam apenas  o que não existe [amar não é aceitar como o outro é é aceitar o que ele não é]

    não quero que nossa história seja vaso de argila moldado e mudado não quero que você se molde, mude sejamos árvore pois me apaixonei por suas raízes plantar expectativas  é cultivar praga no solo fértil é regar com areia as pedras é deixar com sede a flor que se espreguiça na terra

    prefiro plantar sementes de verdade pois contos de fada algum tem mais jardins que seu sorriso nenhum príncipe ou princesa possui o perfume de nossa história pois eles são areia movediça que se desmancha em si

    estou morto pra ti pois não há nada mais  belo que a morte pois amor é ainda a vida que se ganha em se perder

    estou morto  mas cheio de vida diante de ti

    então enterre-me sem medo do seu lado esquerdo