ensaio

hoje é o terceiro dia que ensaio minha morte. não tenho vontade de morrer. não ainda. apenas desejo que o evento de minha morte seja igual a um aniversário, data em que comemoramos um ano a menos de vida. não preciso de muitas pessoas, músicas, comidas. quero somente uma bebida e a companhia dos fantasmas que comigo convivem. decidi fazer festa surpresa, não para mim, mas para todos aqueles que existiram não-existindo em meus dias. ensaiei minha performance final, que terá como espectadores apenas o vento ou as águas do mar; já os outros verão minha última apresentação diluída em cartas, diluída nas entrelinhas das últimas postagens que farei nas redes virtuais ou se tiverem acesso ao bloco de notas de meu celular. entregar meu corpo ao mar será como transbordar os vazios que não me cabem mais. arremessar minha alma do alto de um prédio é lançar ao eterno o peso das noites longas que carrego nos ombros. o enfocar-me risquei da lista, vivo sufocado por silêncios; decidi morrer sem amarras, mesmo sem crer em liberdade. são muitas formas para morrer. viver é uma delas. morre-se ao descobrir o que somos e o que não somos, ao encontrar o não-sentido da existência, ao esbarrar com o furo da camiseta de um menino de rua, ao perceber que a barbárie é vírus que infectou a humanidade desde caim até os tempos modernos, ao supor que talvez nós sejamos esse vírus. morre-se ao sentir o cheiro do rastro vil de empresários e políticos em nosso povo e ao compreender que o poder é a única coisa que nos difere deles, pois deixaríamos a mesma sujeira se saíssemos dos mesmos esgotos. nosso ego é doença contagiosa. morre-se ao pensar no oceano que trouxe no colo o corpo do menino sírio até a praia, na fome da somália, malavi e sudão do sul, nas lágrimas da mãe que teve o filho pendurado pelo cinto de segurança e arrastado pelas ruas da zona norte do rio após um assalto. morre-se ao pensar. nascemos já morrendo e sangrando do ventre. por isso vemos frutos de esperança onde a plantamos, mas nunca a plantamos onde nós estamos. ensaio hoje, não por encontrar razões para morrer, mas por ver motivos para não viver. vivo sangrando no ventre da alma. morrer-se é então dar pausa à cadência da não-vida, é resolver o acorde tensão no contratempo, é deixar o silêncio tocar na hora do solo, é rasurar a partitura escrita pelo maestro do tempo. meu ensaio é para que minha música ressoe no (des)eterno.

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©2020 por Daniel Carvalho e Kerstin Buck

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