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©2020 por Daniel Carvalho e Kerstin Buck

DANIELGTR - CNPJ: 36.240.550/0001-25 - São Paulo, SP
danielgtr@gmail.com

    Estação Realidade


    5 da matina, o relógio tá tocando

    é só mais um dia de trabalho de quem sonha em ser poeta suburbano

     

    eu acordo, me levanto, mas o sonho de viver de arte continua adormecido

    não há espaço para humanidades dentro do mundo corporativo

     

    lavo o rosto, acordo pra realidade

    tomo uma ducha, me preparo pra insanidade

    me visto correndo

    meia cueca calça camisa gravata cinto sapato um casaco

    mal da tempo de tomar um café

    pra aguentar a batalha diária é preciso ter Fé

     

    Saio pro trampo, pego um busão, mas vou em pé

    dia chuvoso, hoje vai ser longa a caminhada até a Sé

    já no metrô, o contingente de gente empurra mais forte que maré

    já logo cedo, a vida me dá um pontapé

    (pior pra quem é mulher, aguentar uns mano tarado dando um migué)

    tanta gente que sofre junto, não é?

    Prazer, me chamo Daniel

    e também sou levado a sobreviver como um Robinson Crusoé

     

    Exprimido entre outros corpos, tento exprimir minhas ideias, expressar minhas rimas

    mas é tanta gente que nada cabe, nem embaixo ou cima

    não há espaço nem pros versos, isso até desanima;

    duelam, dentro de mim

    as metáforas de artista e as metas de um trabalho fascista

    Daniel, Daniel...

    vamô sê realista?!

    Como ser romancista socialista nas garras do mundo capitalista?

    Aí fico pessimista, aí já viro quase um niilista.

    Poesia não é produto que vende fácil num mundo materialista

    por isso tenho que pensar é nos lucros de produção que vou dar pro patrão

    não dá tempo de buscar inspiração pra escrever histórias bonitas que vem do coração...


    [e assim, meu poema se perde entre a plataforma e o vão]


     

    Chego no trampo, o prédio mais parece prisão.

    Dou “bom dia” pra moça bonita da recepção... troco olhares

    (Quem sabe não faço um poema pra ela? Quem sabe não é ela minha inspiração?)

    mas aqui dentro não dá tempo de estreitar relação

    assino o ponto, bato cartão, aqui o mais importante é fazer mais que a obrigação

     

    Na hora do almoço (e é só meia horinha), ainda tem matéria da facul pra estudar

    mais uma vez, meu poema se desmancha no ar

    Preciso ao trabalho voltar!

    engulo correndo o arroz e o feijão

    engulo a seco a correria, a tensão


     

    papéis, papéis, papéis, papéis e mais papéis

    se marcar bobeira, vão me deixar sair daqui só depois das dez


    (que sufoco essa rotina de trabalho que assassina

    mata nossa criatividade

    mata nosso senso de humanidade)


    E o patrão? O patrão nem sabe o que sinto!

    De sexta, toma vinho tinto e faz selfie na festa enquanto nóis faz pra ele hora extra

     

    Fim do expediente: disputar um espaço no metrô com um mundaréu de gente!

    De repente, uma ideia me vem à tona, uma poesia vem quase pronta, mas

    não tenho como pegar papel e caneta na mão, nem dá tempo de fazer anotação

     

    No vagão lotado, no apertado espaço, penso no meu verso que não faço

    me desfaço em pedaços, viro estilhaço na multidão.

    Descalço de ideias, numa vida de odisseias

    alço voos de fracasso

    ouço notas tristes no compasso

    vivo desregrado em descompassos

    sou mais um touro de Picasso

    que volta só o bagaço

     

    nasce o cansaço, nasce o suor

    nasce a revolta na volta pra casa ao pensar nos problemas que

    impedem o nascer do poema.


     

    Contemplo, então, o que é dilema

    Vira tema de meu poema uma vida vivida a duras penas

     

    Observo os rostos que sofrem e transpiram junto comigo:


     A senhora de aparência cansada ali sentada

    O pai de família que quase dorme em pé por conta da longa jornada

    E o menino, de camisa rasgada,

    que vende bala no trem e da desigualdade é refém

     

    rompo com o olhar contemplativo

    compor sobre a fuga do real não será meu incentivo

    em vez de ser sedativo, prefiro ser curativo

    não sou da realidade um fugitivo

    mas sou alguém ativo na luta

    cujo fazer poético é reflexivo


    Meu ócio criativo

    é a observação do que é duramente vivido.

    São esses os ócios do ofício de um poeta

    que na dialética se completa.

    São ócios do ofício 

    tratar da realidade de um tempo difícil.