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©2020 por Daniel Carvalho e Kerstin Buck

DANIELGTR - CNPJ: 36.240.550/0001-25 - São Paulo, SP
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    eu confesso

    confesso que prendi meus olhos aos seus assim como turistas prendem cadeados nas proximidades da pont des arts sobre o rio reno ou até mesmo em gramado onde nativos e forasteiros imitam a europa nas luzes costumes e chocolates me prendi tanto aos seus olhos que em seguida me prendi às promessas que a mim fiz jurei mudar voltei a crer em monogamia ri dos pós-modernos eu ri também de mim mesmo por ser pós-moderno desde os dezesseis quando desejei ménage com uma namoradinha do ensino médio sem saber como sugerir isso a ela mas nada disso importa aliás, é das coisas que não importam que a gente gosta é por isso que a gente gosta de poesia ela não serve pra nada, meu bem aqui ela serve apenas pra mostrar que eu fui tão devoto às minhas juras de amor quanto aqueles que amarram fitinhas no bonfim em paris ou salvador ou até mesmo num boteco numa esquina de são paulo eu seria supersticioso igual só para garantir que a gente fique junto até velhinhos tudo porque nosso primeiro beijo foi nossa primeira transa vivemos felizes para sempre durante duas ou três horas e quatro cervejas até me vi caminhando de mãos dadas em alguma trilha em monte verde ou na festa do morango em atibaia isso tudo por culpa dessa nossa mania de ser intenso viver e morrer e viver e morrer numa noite e se enterrar em ressaca às seis da manhã mas, calma eu sei que você nunca se casou comigo talvez para você tenha sido apenas uma transa dentro de um carro numa noite fria de sp nessa cidade fria em que cantores dizem não existir amor deixe-me, apenas imaginar e sentir que foi amor nem que seja uma noite dois dias um ano o tempo que for deixe-me sentir apenas, meu bem eu só não coloco nossas iniciais num cadeado e as jogo num rio porque os rios da minha cidade são sujos e de sujo já basta eu antes prender nossa história nessas superstições burguesas que estar com os dois pés em guerra um pé acorrentado pelo desejo de voar o outro pelo desejo de pousar em ninho seguro ambos desejos intensos e armados é sangue, disfarce e orgulho espalhados por todos os lados sou prisioneiro de mim mesmo e não há bandeira branca de paz quando meu peito é território seu agora entendo essa porra de bipolaridade em camões quero estar preso por vontade é servir a quem vence, o vencedor a única liberdade que eu quero é a de ficar se liberdade é conquistar asas então como ser livre após um voo? dá pra se libertar dessa mania de construir aeroportos nas nuvens e viver turbulências de um dia de uma semana, de uma noite? fique tranquila e não se assuste, meu bem me prendi sozinho aos seus olhos e você não tem nada a ver com isso sou apenas mais uma nuvem cheia de turbulências em que você pousou no verão do ano passado hoje você pode estar sorrindo com malícia para a vizinha do 1006 dando amei em tudo que outro poeta posta ou dormir mais uma semana com aquele meu colega de profissão eu finjo que nada disso importa como finjo que escrever sobre isso é importante é sobre sangue, disfarce e orgulho que escrevo é sobre amor é sobre nossa transa que nunca mais vai acontecer é sobre nossa transa que nunca aconteceu talvez é sobre mim e nada sobre você por isso que nada importa eu desejei estar preso sem querer te prender e isso também é liberdade é um contentamento descontente é dor que desatina sem doer é voo que desatina em se pousar eu apenas espero que um dia você faça meu peito de ninho vá, viaje vá a butecos, museus swings, a paris se quiser mas não coloque suas iniciais em nenhum cadeado sem antes lembrar daquela noite meu coração está fechado com trancas e correntes apenas você tem as chaves volte quando quiser eu te espero, aqui dentro de uma nuvem e turbulências [por favor, apenas não me tranque sozinho pro lado de dentro]