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©2020 por Daniel Carvalho e Kerstin Buck

DANIELGTR - CNPJ: 36.240.550/0001-25 - São Paulo, SP
danielgtr@gmail.com

    lembrança do mundo antigo

    I.

    antes o filho de Clara brincava no jardim da escola com as crianças

    o céu era verde sobre o gramado a água era dourada na torneira que matava a sede no pátio as nuvens faziam um ateliê diferente a cada leitura a camiseta branca ficava sempre marrom pintada pela terra e havia mais cores que os pixels podem desenhar

    hoje o neto de Clara suja menos camisetas quase não sai do quarto do 3º andar do prédio Saint-Preux pra ver as pinturas das nuvens cinzas metade do jardim da escola virou sala de informática, a outra metade, estacionamento a grama é bem verde nos jogos online de futebol a água ainda sai dourada pela torneira mas só quando não tem racionamento

    hoje também há cores no céu o céu cinzento até recuperou os tons azuis, róseos e alaranjados mas observá-lo por uma tela faz com que tudo nele pareça preto e branco



    II.

    anos atrás numa cidadezinha do interior tudo era perto da gente

    nos dia de chuva as paredes da sala eram úmidas seu tom esverdeado e claro se apagava o sol mal entrava nas frestas da janela

    quando chovia bastante nem sol tinha o reboco da parede descascava e caía caía como a tristeza da chuva caía como a umidade dos olhos

    nos dia de morte a despedida era dentro das nossas paredes úmidas e frias o caixão era trazido pra dentro casa a lágrima também

    hoje em qualquer capital cheia de gente até quando perto as coisas estão longe

    a gente morre num hospital em que não conhecemos ninguém a parede é menos fria que a fala do médico a despedida é na igreja, no cemitério não mais em casa

    a saudade é a mesma a lágrima é certeza

    entra corpo sai corpo enterra alma enterra outra mais outra

    a produção não pode parar!

    [antes de chorar, a gente precisa assinar uns papéis]

    diversas salas no corredor todas são úmidas e anoitecidas nos dias de chuva

    cada sala tem um choro diferente e distante de casa

    [não se esqueça de assinar aqui antes de morrer também o verso]

    em uma cidade grande a despedida fria fica mais fria e até a morte fica distante de nós



    III.

    enquanto o mundo na cidade grande gira mais rápido aqui tudo permanece o instante do minuto parece eterno

    as únicas coisas que se movem são as águas do lago e as folhas das árvores

    o canto dos pássaros é eterno o perfume das plantas permanece o conforto do vento é constante

    uma brisa suave caminha até mim acaricia minha face é beleza sem fim fez com que o poema se calasse

    a voz de um quero-quero é quem recita o verso o silêncio das águas dá a musicalidade a árvore traz o frescor e a inspiração

    já o eu-lírico sentado no banco em frente ao lago lê a eternidade no minuto de calmaria