Inscreva-se para receber novidades

  • Facebook - Círculo Branco
  • Instagram - White Circle
  • YouTube - Círculo Branco

©2020 por Daniel Carvalho e Kerstin Buck

DANIELGTR - CNPJ: 36.240.550/0001-25 - São Paulo, SP
danielgtr@gmail.com

    O menino e um farol


    É frio, tá de noite

    o vento me corta tipo uma foice

    jaqueta fina, calça que não serve no irmão

    chinelo, sem meia,

    imagina a pressão


    Tô com fome e preciso levar grana pra casa

    entro num fast food

    mas ali só tem gente rude comendo

    vai vendo

    Entro

    peço uns trocado

    mas na mente dos cara sentado tá escrito:

    "dar grana pra moleque folgado, pra quê? Não sou obrigado!"

    Me sinto culpado, nem sei de que!

    O recado é dado no olhar indiferente

    mas, na fala, a forma é diferente

    sorrisinho sem graça e hipócrita na boca:

    "não tenho grana hoje, filho."

    E assim eu trilho

    mas só partilho

    da mesma dor

    com quem é da quebrada

    porque, pros outro, nóis não é nada

    a moeda nem é dada

    mas a ideia errada é lançada:

    "sustentar família errada? Vagabundo que bota criança no mundo? Não vou! Cadê o pai dessa criança?"

    Ae, também faço essa cobrança!

    Meu pai tá preso...

    foi isso que me deixaram de herança

    "Mas e a mãe?"

    sei lá, meu

    quem tá pedindo ajuda não é ela

    sou eu!


    Passo de mesa em mesa

    já na certeza do não

    não tenho patrão

    mas tenho minhas meta

    preciso sustenta meus irmão.

    Tá vendo como no bagulho tenho responsa?

    E você aí na desconfiança.

    Jão, nem tenho tempo de estudar

    nem cabeça pra pensar

    que a escola é importante

    o trampo na rua é maçante

    Enquanto os moleque da sala têm tempo de jogar video game e fazer lição

    minha mãe não tem grana pra botar um lápis e borracha na minha mão


    Realidade dura e fria

    o desejo de vingança em mim se cria.

    Os moleque me zoando na escola

    só porque vivo pedindo cola

    acham que sou burro e idiota

    talvez eu seja

    mas minha melhora ninguém almeja.

    As prof dizendo que eu tenho que ter mais esforço

    umas me deixaram de reforço

    umas tia até disse cheguei ao fundo do poço.

    Mas ninguém nunca perguntou quais são minhas meta

    ninguém chegou “ae, moleque, quais são seus sonho?”

    Sabia que pra sair dessa vida até uns funk componho?

    Pois é, também quero andar nos pano

    não é isso que dá valor ao ser humano?

    Então, por isso comecei a andar com uns mano aí...

    Tô fazendo coisa errada

    Eu sei

    Mas também queria ter tua vida de rei...


    A realidade da rua convida

    à conduta da intriga, da ira.

    Dizem pra mim "sai dessa, é fria!"

    Sair como? Minha vida nem tem poesia

    E nem me venha com ladainha de meritocracia!

    Qual é a tua?

    Trampo vendendo bala na rua

    enquanto você sai de carro pros rolê

    pra você vê

    não é a meritocracia que faz a gente crescê?

    Então, tio,

    trampo no frio, olho uns carro

    vendo bala no farol

    faça chuva, faça sol

    tô na correria

    mas a recompensa de mim se distancia!


    Fala, jão, por que tô dessa?!

    Fala, caraio! Como saio dessa?

    Meça seu preconceito, parça

    porque por nóis não há quem faça!


    *


    Relaxa, jão, não vou te roubar

    mesmo você miguelando aí esses trocado que vai sobrar.

    Quem tá roubando aqui é a sociedade

    tá assaltando a infância de um menino.

    E é sempre parece destino do oprimido parecer o assassino.

    Quem segura a arma aqui é você, burguês da classe dominante

    é o seu olhar de desprezo, arrogante


    O grande inquisidor

    da minha sentença

    é a tua indiferença!