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©2020 por Daniel Carvalho e Kerstin Buck

DANIELGTR - CNPJ: 36.240.550/0001-25 - São Paulo, SP
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    o preço em ser poeta

    ao terminar este poema leonardo, amigo de infância morrerá em doze minutos antes de terminar esta estrofe gabriela irá se despedir e eu não terei tempo para ficar de luto a cada ponto final em meus textos uma pessoa se vai é por isso que sou agramático não é por estética fujo das regras para não deixar rastros de meus crimes poeta vive para o mundo nada para si nada para os outros a gente escreve para mil amores mas em noites longas o consolo são linhas do século dezenove e algum whisky barato nenhuma amizade dura até o fim da rima amores são guardados nas gavetas eis o preço de ser do mundo o mundo é ninguém manoel fala da importância em ser menino peralta em viver em despropósitos ser menino é ser poesia a infância das palavras é descomeço do mundo e o descomeço é onde fica o éden mas manoel não falou que o menino peralta é filho problemático é o filho que mata uma pessoa coloca um tanque de guerra na avenida paulista num domingo derruba um avião se for preciso termina um grande amor tudo para fazer um bom poema de quantas famílias ian viana se despediu depois de rastejar em versos? quantos domingos ni brisant passou em vazios para ter linhas preenchidas numa página? se aquiles não fosse à guerra seria feliz com sua esposa e veria seus filhos crescer se eu tivesse lido menos clarice teria menos calcanhares feridos e despedidas veria tássia se formar os filhos de denilson o velório de fillipe o casamento de thayná [talvez teria me casado com thayná] eu veria minha mãe pelo menos duas vezes na semana quantas vidas valem um bom poema? qual preço da não-vida de poeta? meus dias são o metrô de uma metrópole corpos amontoados olhares se percebem apenas até a próxima estação mas ninguém se ouve talvez lucas da rua debaixo desapareça na próxima estrofe assim como marcela desapareceu em 2016 talvez você morra algum dia após ler um poema meu talvez pode ser agora eu não sei cansei das guerras das mortes queria apenas a morte do meu eu-aquiles se gosta de mim não leia mais meus versos leia meus olhos sem rimas e idealizações eu não tenho mais tempo para ficar de luto