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©2020 por Daniel Carvalho e Kerstin Buck

DANIELGTR - CNPJ: 36.240.550/0001-25 - São Paulo, SP
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    olhe sempre para os dois lados antes de atravessar um coração

    nossos corpos se encontraram no meio da avenida naquela mesma tarde comum em que uma mãe chora a morte de um filho em que uma família indígena é expulsa por fazendeiros donos de caarapó em que presidentes de duas nações brincam de pilotar aviões enquanto um menino libanês dorme sua última noite de sono nos encontramos naquela mesma tarde comum de caos em que milhões morrem ou choram mas escolhi escrever sobre nós porque todo poeta é egocêntrico e em pelo menos em um verso de sua vida vai transformar seu sofrimento em algo maior que o desespero de doze meninos presos numa caverna na tailândia talvez você se daria bem como poeta pois sempre pensou mais em si, não é mesmo? mesmo não sendo poeta você me rendeu alguns poemas e insônias eu te devolvi em orgulhos e cigarros porque nenhum de nós dois conseguiu tragar o que aconteceu e aquela avenida é a prova disso dois corpos que quase se esbarraram no aperto de uma encruzilhada de concreto naquele instante tudo parou a menina que andava de patins um casal abraçado que atravessava a mesma avenida a banda de jazz que tocava na outra calçada tudo parou e fez silêncio um silêncio de alguns segundos proporcional aos onze meses que ficamos juntos era como se todas as almas e corpos ficassem estáticos e apenas nós dois em movimento andando no meio de um labirinto de pessoas até as pombas que voavam pairaram no ar e ficaram estáticas o sol também não se movia assim como naquela tarde comum de guerra que viveram os israelitas do antigo testamento dois corpos dividindo o mesmo perímetro de concreto e um vácuo entre uma palavra ou um gesto um vão entre seu olhar e o meu no auge desta travessia o chão se abriu a mim depois do silêncio e tudo naquela avenida implodiu desde os prédios até a criança que andava de patins mas nem no meio dos escombros me senti tão sufocado quanto o dia em que percebi que você apagou meu nome da sua lista de contatos para que seus outros amantes não descobrissem quem lhe desejava bom dia todas as manhãs hoje não há mais desejos, nem bom dia dois estranhos atravessando a avenida de uma cidade grande qualquer diálogo entre nós seria como perguntar a um estranho ao dono da banca de jornal ou à boliviana que vende artesanatos na frente do banco safra para que lado fica a rua da consolação um diálogo entre dois corpos que se conheceram no perímetro de onze meses um diálogo entre duas almas que nunca se conheceram no perímetro de onze meses um diálogo entre dois desconhecidos uma pessoa se perde quando o caminho é desconhecido talvez por isso nosso sentimento nunca encontrou o caminho de casa [olhe sempre para os dois lados antes de atravessar um coração]