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©2020 por Daniel Carvalho e Kerstin Buck

DANIELGTR - CNPJ: 36.240.550/0001-25 - São Paulo, SP
danielgtr@gmail.com

    quando as luzes vida da vida se apagam, é hora de dormir

    quase todas as noites minha morte vem me visitar abre a porta do meu quarto senta ao meu lado na cama conta histórias pra dormir ela não veste capuz não usa foice é até bonita, faz cafuné e sempre promete me levar ao parque para me ensinar a andar de patins (eu que nunca tenho tempo de ir ao parque nas manhãs de domingo) ela conversa sobre o passado e o futuro só o presente que não tem enredo descobri que minha morte é artista sabe contar histórias como ninguém até suas fábulas repetidas parecem histórias novas minha morte é a poeta que eu nunca fui ela é tipo mãe superprotetora sufoca o filho mas apenas quer me tirar da vida para que eu não me machuque mais antes me incomodava com isso e até desouvia seus conselhos eu era do tipo que gostava de viver de perigos chupava sorvete no calor sem me preocupar com choque térmico na garganta tomava chuva e fazia hora pro banho morno tentava atingir 70km no velocímetro da bicicleta naquele descidão da avenida dos nacionalistas atirava mamonas nos amigos mesmo não tendo munição reserva quis ter diploma mesmo nascendo na periferia e já planejei a vida inteira no minuto de um beijo eu era de fazer essas coisas que só gente de coragem consegue viver mas hoje presto mais atenção nas narrativas da minha morte porque percebi que suas histórias não são de autoria dela são minha, sua, dos nossos pais e avós, de serguéi iessiênin e de vladimir mayakovsky, de augusto dos anjos, dos niilistas do século XX, de goethe, dos escandinavos, dos bárbaros, de jonas e até de orfeu. são narrativas do que vivemos e viveremos no verso que é o lapso de todos os séculos narrativas de todos os mares que transbordam numa lágrima e de todas as hemorragias parindo um adeus as visitas de minha morte são o berço que me abraça no sono tranquilo intranquilo mesmo é o acordar intranquilo é o despertar de sonhos que se quebram em ondas o desesperar de sonhos-areia golpeados pelo mar [quando as luzes vida da vida se apagam, é hora de dormir]