Adeus de um menino

Havia um menino assentado ao pé de um muro. Suas mãos seguravam dois bonecos e, apenas com esses dois brinquedos, um enredo grandioso de guerra era encenado em sua mente. Mal sabia o menino que uma guerra ainda maior acontece todos os dias do outro lado do muro.   

Nos pés da cerca de pedra, crescia a relva que servia como tapete do solo e alguns tipos de trepadeiras tomavam as paredes do muro; seus caules, rígidos e secos, traziam consigo sombra e clima frescoalém de poetizarem o cenário com o contraste de suas folhas verdes brilhantes e flores brancas. Tais flores tinham a forma de uma trombeta que tocava a melodia da inocência.   

O menino, quando se sentava para brincar, encostava-se ao muro e sentia-se confortável com as plantas que protegiam as suas pequenas costas. À sua frente, estava plantada uma árvore grande, de diversos galhos, flores e frutos, e em cujo tronco rugoso orquídeas se apoiavam. As histórias que o pequeno criava com seus bonecos eram tão fantasiosas quanto o Labirinto de Creta; a ficção era tão intensa que chegava a ser real (porque é possível fazer realidade sem existir algo concretamente real).   

Do outro lado do muro, não há muitos teseus mais fortes que minotaurosE, assim, real se confunde com a ficção. Mas o menino mal sabia que existia um outro lado...   

A ampulheta gira.   

Certo dia, o menino ouviu vozes, gritos e uma agitação que vinha do outro lado. Levantou-se, ficou na ponta dos pés, mas o muro era demasiadamente alto para ele. Pulou. Segurou seu corpo com seus dedinhos ainda frágeis que tocavam o topo do muro. Ergueu-se mais. Seus olhos podiam observar pela primeira vez o lado de láViu pessoas reunidas em torno de um caixão. Embora não entendesse aquele momento, mesmo assim, sabia que o velório era de seu avô. Seus dedinhos não aguentaram por muito tempo e ele desceu. Olhou seus brinquedos, lembrou-se do dia em que os recebera de seu avô. Foi a primeira vez que choveu no seu lado do muroFoi a primeira vez que sentiu frio. Nesse dia, ele não se sentou para brincar.   

A ampulheta tem seu novo giro.   

O pequeno sentiu a curiosidade de saber o que existia do lado de lá. Um pouco crescido, o menino conseguiu pular o muro. Doutro lado, viu que também havia uma árvore, mas ela possuía apenas um frutoSeus galhos eram altos e secos e pareciam sumir momentaneamente na névoa úmida. O orvalho caía na relva, as folhas amareladas dançavam no chão por causa do vento; um pássaro assustado levantou voo daquela árvore e descansou perto de um lagoO horizonte escurecia e tudo ali parecia mergulhar na névoa.  

Em forma de gemidos, o vento começou a uivar e fez redemoinho com os ramos que caíram da árvore. O melancólico céu enegrecia (corra, pequeno; corra! Olha que há mais metafísica no bosque deste mundoCorra, pequeno, corra! De um momento para o outro vão acontecer coisas medonhas aqui, filho).   

Assustado, ele correu tanto a ponto de ficar sem ar. Em segundos, escalou o muro voltando para o lado do qual vinha e sentou-se em seu cantinho para brincar com seus bonecos. Já mais calmo, viu um bando de aves com gritos selvagens e estridentes encobertarem o céu. Vieram do outro lado e logo sumiram no horizonte.   

O Tempo gira mais uma vez a ampulheta.   

O menino não era mais tão menino e sentiu fome. Veio-lhe a lembrança do único fruto que tinha a árvore seca. Sem dificuldade, pulou o muro e correu a fim de saciar-se. Com o pomo nas mãos, percebeu que ali não havia trepadeiras como as do seu lado do muro, era apenas cimento gélido e a névoa não o deixava ver o topo da construção. Ao morder o fruto, sentiu o frio cortar seu corpo nu; ainda assim, decidiu conhecer o lado do qual agora fazia parte. Olhou em volta, apreciou o cenário e decidiu transpassar as portas da neblina. Correu em direção ao centro, para o lado oposto do muro, correu para além do bem e do mal.   

Agora o Tempo e Espaço da ampulheta são relativos e o homem percebe que a cerração escondia o tamanho real daquela pequena floresta.   

Lá, onde o nevoeiro era mais intenso, menino encontrou um vagão abandonado. Nele entrou e viu trezentos trabalhadores mortos. Os cadáveres, amontoados, fediam tanto quanto as fezes de abutres conservadas em salmoura. Os dentes de alguns corpos pareciam ainda tremer de frio e o menino teve a sensação de ouvir vozes sussurrando... era apenas a carta pós-morte datada de Guerra que os trabalhadores recitavamNo chão de ferro daquele vagão, nascia uma rosa negraAo tocar nela, um dos espinhos furou seu dedo. Muitos outros meninos inocentes sangraram ao tocar na rosa antes.   

Não havia apenas aquele vagão para conhecer naquele outro ladoE o menino correu para o sul, onde parecia acabar a floresta. Havia poucas árvores, muitas máquinas. Havia também pessoas que transitavam naquele lugar e a névoa não permitia ver a fisionomia de nenhuma delas (o menino se sentiu mais sozinho do que quando estava só do outro lado). Chamou-lhe atenção um tabuleiro de xadrez feito pela madeira das árvores derrubadas pelas máquinas. As peças estavam incompletas em si, somente havia torres brancas e peões pretos. Foi quando o menino acreditou que o sentido de sua ida a este lado do muro era vencer aquele jogo começado no tabuleiro.   

Já era noite. A noite parecia mais longa ali! Ele viu pessoas que passavam fome andando entre as máquinas e percebeu que muita gente morria de frio ali. Num anseio existencial, repensou o motivo de sua ida àquele lado do muro. Foi quando, por meio do Logos, quis multiplicar mais pães e peixes que CristoFoi quando, por ouvir várias vozes, viveu mais angústias que Kierkegaard (mas o menino parecia amar mais seu próprio desejo ideológico que o ideal desejado).   

Ainda era noite e o menino crescido quis fumarNão era difícil conseguir tabaco ali. Ele tragou todos os sonhos do mundo, mas se engasgou com a fumaça que era real. Sentiu sede. Lembrou-se do lago que havia perto daquela árvore seca. Decidiu correr de volta em direção ao muro a fim de saciar-se novamente. Lá, no lago, o menino já homem, viu seu reflexo nas águas. Não se reconheceEstá de máscaraTira a máscaraAinda não se reconheceFecha os olhosVê um reflexo diferenteFecha os olhosOlha para si de novoContinua de máscara.   

O homem tão menino olhou para o lado, viu um tronco de árvore vazio que servia de assento. Nele, o Nada fitava seus olhos e sorria para ele. Lembrou-se das vozes que disseram para ele correr quando menino, as mesmas vozes que disseram que coisas estranhas aconteceriam aliTais coisas começaram a acontecer quando ele comera do fruto.   

O céu enegreceu de vez! As folhas secas do chão acompanhavam o guincho lamentoso do vento que começara a uivar. Pássaros assustados apareceram de traz das árvores como naquele dia e quebraram com seus gritos estridentes o silêncio daquela mata desnuda e sombria. Mas não era somente aves sairiam de traz dos troncos (com que monstros atrás dos troncos sonha nossa vã filosofia?).   

Tomado pelo horror que lhe palpitava desenfreadamente o coração, correu de volta para o muro igual a criança indefesa que antes era. Mas o muro deste lado parecia ter mais tijolos que o muro do outro lado. Tentava pular, alcançar o topo com as mãos. O seu impulso era demasiadamente fraco, parecia que o fardo de um aleijado estava sobre seus ombros. Sentou-se aos pés do muro, sentia a garoa fina se misturando às suas lágrimas e refletiu no quanto era medíocre perto do muro (mas tornar-se medíocre foi a única moralidade que fez sentido ao menino). Em seguida, caiu num sono profundo até amanhecer.   

Feixes solares interromperam seu sono e, num leve movimento de esticar os braços, o homem bocejou. Ele acordou e decidiu voltar. Sabendo que o muro era alto, optou por quebrá-loCom uma pedra, batia nas paredes a fim de rachá-las... em vão!, nada acontecia! Apenas uma pequena fresta que permitia espiar o lado do muro onde nasceu. Através dela, viu seus brinquedos e percebeu que boneco que representava o herói estava de joelhos com o rosto no chão. Já o outro, permanecia de pé mesmo com a força e as vontades do Vento.   

O homem também observou aquela árvore milagrosa toda arreada de dourados pomos e flores, mas não conseguia tocá-la, porque ela está sempre onde a pomos e nunca a pomos onde nós estamos.   

Ah! As orquídeas que enfeitam o tronco da árvore! O homem não consegue mais ver nelas a forma de uma trombeta.

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